Crônica,  Memória

Pensando que a banda tocava pra mim

Publicação em 23/01/2026.

Em janeiro de 2002, eu ainda morava no bairro Vila Paris, aqui em Belo Horizonte, quando minha mãe veio passar uns dias na minha casa.

No domingo, convidei-a para passear na Feira Hippie. Para mim, até hoje, é mais poético chama-la assim do Feira de Artesanato. Prefiro. Sempre preferi.

— Mãe, vamos dar uma volta na Feira Hippie. Vai que encontramos algum conhecido. Cidade pequena é assim.

— Cidade pequena, BH? — ela questionou.

Sempre brinquei que me mudei de uma cidade grande para uma pequena. Afinal, Valença é quatro vezes maior em extensão territorial do que Belo Horizonte. Trata-se, claro, de uma falácia poética: não faz sentido nenhum. BH é capital, tem uma população trinta e seis vezes maior que a de Valença. A afirmação é absurda, mas irresistível como provocação. Sempre que a repito, surge alguém disposto a contestar. Por isso mesmo continuo.

E não é que, andando pela calçada larga da Avenida Afonso Pena, contornando os estandes de exposição e passando em frente ao portão do Parque Municipal, encontramos e cumprimentamos o prefeito de Valença naquele mandato, Luiz Antônio Corrêa? Coincidentemente, ele estava de férias por ali, conhecido da minha mãe desde a década de 1970. Meu pai fora vereador no mesmo partido, à época de seu primeiro mandato como prefeito. A cidade pequena se materializava ali, no meio da capital.

— Viu, mãe? Cidade pequena é assim, há sempre um conhecido por aí.

Em abril de 2003, feriado de Corpus Christi, convidei minha namorada, Eliane, para visitar Valença pela primeira vez.

Valença é cidade grande, mas todo mundo conhece todo mundo. Parece até cidade do interior. Sempre brinco com isso.

Quem visita Dona Ângela em Corpus Christi não escapa do convite para assistir à procissão no centro da cidade. As ruas são enfeitadas com tapetes coloridos, feitos de serragem, flores e folhas, aguardando a passagem da procissão. É um costume antigo, herdado do período colonial, comum em cidades no interior de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

As pessoas se aglomeram nas calçadas, esperando a procissão para, logo depois, seguir o cortejo, no fluxo lento do andor.

Desde criança, eu gostava de esperar na Rua dos Mineiros, em frente à Farmácia São José. Ali, os enfeites me pareciam mais bonitos. Talvez por estarem mais próximos da Catedral. Talvez por exigirem um percurso menos.

Ninguém pisa nos enfeites de serragem antes da procissão passar. Há um pacto silencioso para não estragar nada. É uma sensação gostosa esperar o momento em que os pés misturam, sem pedir licença, todas aquelas cores cuidadosamente desenhadas.

Até que, ao longe, começa-se a ouvir o carro de som ou a banda tocando os hinos e marchas, anunciando que o sagrado se aproxima.

Ao se aproximar, à frente da procissão e do carro de som, vinha o padre Valdir, segurando o microfone. Perto da farmácia, ele deixou o microfone, saiu da procissão e veio ao meu encontro:

— Cléber, que bom que você está aqui! Sua mãe nem me falou que você vinha!

Abraçou-me com pressa e voltou ao seu lugar à frente da procissão.

— O padre saiu da procissão pra te cumprimentar? — espantou-se Eliane.

Não houve tempo de explicar o quanto eu conhecia o padre Valdir. Essa história fica para outra ocasião, que planejo contar em breve.

O carro passou, o andor passou e logo veio a Banda Progresso, regida pelo maestro Antônio Rocha, que caminhava à frente dos músicos, embora naquele momento não estivessem tocando. O padre rezava novamente. Quando Antônio Rocha me viu, olhou com surpresa e acenou, cumprimentando-me à distância.

— Até o maestro da banda? — ela questionou novamente, ainda tentando entender aquele território.

A modéstia eu deixo de lado quando conto essa história. Confesso que me senti importante naquele dia. Já fazia mais de seis anos que eu havia deixado Valença para morar em Belo Horizonte; e, antes disso, dois anos trabalhando em Volta Redonda haviam afrouxado os contatos e laços cotidianos. Ainda assim, os fios permaneciam. Por isso, repeti essa história muitas vezes, sempre na presença da Eliane, para garantir a veracidade do relato.

Se o leitor, como um interlocutor certa vez comentou, pensar em duvidar, argumentando que só faltou dizer que o prefeito da cidade também foi me cumprimentar, apresso-me em esclarecer:

— Ah, não… o prefeito foi a Belo Horizonte me cumprimentar pessoalmente.

(Belo Horizonte, 20 de janeiro de 2026.)

6 Comentários

  • Marina Fontes

    Filho e neto de peixe….. peixinho é.. sempre uma lembrança para contar…. padre Valdir muito espontâneo como sempre…

    • Cléber Fontes

      Oi, Marina! Memórias puxam memórias, não é? Essas cenas ficam guardadas como quem guarda um cheiro antigo.Obrigado por trazer essa lembrança junto com a sua leitura. Beijo!!!

  • Osvaldo Pereira

    Cléber, parabéns . Machado de Assis cairá no esquecimento. Carlos Drummond, Guimarães Rosa, etc. Se tornarão lixo.
    O Cléber é o MÁXIMO.
    Fico emocionado.
    Deus o abençoe.

    • Cléber Fontes

      Querido tio!
      Fico profundamente tocado com o carinho das suas palavras. Se algo que escrevo emociona, continua muito vivo em mim.
      Obrigado pela leitura, pelo afeto e pela bênção. Um grande abraço!!!

  • Cleusa Maria Fontes

    Amei!
    Procissão de Corpus Christi me traz boas recordações da época de escola quando participávamos da procissão uniformizados.
    Gratidão por me trazer essa bela lembrança.
    Abraço

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