Crônica,  Memória

Pensando que a banda tocava pra mim

Em janeiro de 2002, eu ainda morava no bairro Vila Paris, aqui em BH, e minha mãe veio passar uns dias na minha casa.

No domingo, convidei-a para passear na Feira Hippie — para mim, até hoje, é mais poético chamar de Feira Hippie do que Feira de Artesanato. Prefiro assim.

— Mãe, vamos dar uma volta na Feira Hippie. Vai que encontramos algum conhecido. Cidade pequena é assim.

— Cidade pequena, BH? — ela questionou.

Sempre brinquei que eu tinha me mudado de uma cidade grande para uma pequena. Afinal, Valença é quatro vezes maior em extensão territorial do que BH. É uma falácia poética, não faz sentido nenhum. BH é uma capital, tem uma população 36 vezes maior que a de Valença; a afirmação é absurda, mas é uma provocação garantida. Sempre que digo isso, aparece alguém para contestar. Por isso continuo.

E realmente, andando pela calçada da Avenida Afonso Pena, contornando os estandes de exposição e passando em frente ao portão do Parque Municipal, encontramos e cumprimentamos o prefeito de Valença naquele mandato, Luiz Antônio Corrêa, que coincidentemente estava de férias por aqui, conhecido da minha mãe desde a década de 70. Meu pai havia sido vereador no mesmo partido dele, em seu primeiro mandato como prefeito.

— Viu, mãe? Cidade pequena é assim, há sempre um conhecido por aí.

Em abril de 2003, feriado de Corpus Christi, convidei minha namorada, Eliane, para visitar Valença pela primeira vez.

Valença é cidade grande, mas todo mundo conhece todo mundo. Parece até cidade do interior. Sempre brinco com isso.

Quem visita Dona Ângela em Corpus Christi não escapa do convite para assistir à procissão no centro da cidade. As ruas são enfeitadas com tapetes coloridos, feitos de serragem, flores e folhas, aguardando a passagem da procissão. É um costume comum em cidades com herança do período colonial, principalmente no interior de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

As pessoas se aglomeram nas calçadas, esperando a procissão para logo depois seguir o cortejo.

Desde criança, eu gostava de esperar na Rua dos Mineiros, em frente à Farmácia São José. Era o ponto onde eu achava os enfeites mais bonitos, além de ser mais perto da Catedral, um percurso menor a seguir.

Ninguém pisa nos enfeites de serragem antes da procissão passar, para não estragar nada. É uma sensação gostosa aguardar e ver as pessoas passando, misturando todas aquelas cores com os pés.

Até que começamos a ouvir, ao longe, o carro de som ou a banda tocando os hinos e marchas.

Ao se aproximar, à frente da procissão e do carro de som, vinha o padre Valdir, segurando o microfone. Perto da farmácia, ele deixou o microfone, saiu da procissão e veio ao meu encontro:

— Cléber, que bom que você está aqui! Sua mãe nem me falou que você vinha!

Ele me deu um abraço e voltou à procissão.

— O padre saiu da procissão pra te cumprimentar? — espantou-se Eliane.

Mas não deu tempo de explicar o quanto eu conhecia o padre Valdir. Deixo para outra história, que planejo contar em breve.

O carro passou, o andor passou e logo veio a Banda Progresso, regida pelo maestro Antônio Rocha, que vinha à frente dos músicos, mas não estavam tocando naquele momento. O padre rezava novamente. Quando Antônio Rocha me viu, olhou com surpresa e acenou, cumprimentando-me.

— Até o maestro da banda? — ela questionou novamente.

A modéstia eu deixo de lado quando conto essa história. Confesso que me senti importante naquele dia. Já fazia mais de seis anos que eu tinha me mudado de Valença para Belo Horizonte; sem contar que, dois anos antes, ao ir trabalhar em Volta Redonda, eu já não tinha tanto contato assim. Dessa forma, repeti essa história muitas vezes, sempre na presença da Eliane, para dar veracidade ao conto.

Se o leitor — como um interlocutor certa vez comentou — pensar em duvidar, argumentando que só faltou dizer que o prefeito da cidade também foi me cumprimentar, eu logo esclareço:

— Ah, não… o prefeito foi a BH me cumprimentar pessoalmente.

(23 de janeiro de 2026)

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