Crônica,  Memória

O ônibus certo

Publicação em 06/03/2026.

Quando me mudei para Belo Horizonte, em 1997, andava muito de ônibus. E gostava.

Da janela do ônibus eu via o mundo passar por mim. Pessoas, lojas, histórias, curiosidades. E às vezes, alguma ideia também. Um desfile silencioso de vidas que se cruzavam por alguns instantes e depois seguiam cada um para o seu destino.

O ônibus sempre me pareceu um meio de transporte democrático. Ali cabem todos: os que falam demais, os que riem alto, os que morrem de vergonha de atender ao celular e os que fazem questão de atender. Eu, geralmente, escrevia ou lia. Outros não fazem nada, mas observam tudo. São os curiosos a quem dediquei algumas linhas do meu poema “No ônibus”.

No início, morava no bairro Rio Branco, em casa dos meus tios.

Em Belo Horizonte, as linhas são numeradas e algumas são divididas por letras, como no caso que vou contar: 2010A, 2010B e 2010C. Sempre existe alguma pequena complicação na lógica urbana.

Um dia eu estava no 2010C, linha que hoje já nem existe mais com esse nome. No primeiro ponto da Avenida Paraná, uma mulher entrou, passou pela roleta e parou ao lado do cobrador para observar o itinerário colado na parede do ônibus (naquela época ainda existiam cobradores).

Quando o motorista já havia fechado a porta para seguir viagem, ela se agitou:

— Por favor, abra a porta. Peguei o ônibus errado.

O motorista abriu. Ela desceu. A porta fechou novamente.

Mas lá fora ela ficou olhando o ônibus com atenção, como quem tenta decifrar um enigma. De repente se desesperou e começou a bater na porta:

— Motorista, por favor, abra a porta! Eu estava no ônibus certo!

Não preciso dizer que o ônibus inteiro olhou para fora e riu.

O motorista, confuso, abriu novamente. Ela entrou visivelmente envergonhada. Ficou em pé aqui, depois ali, procurando um lugar onde coubesse também a vergonha. Parou ao lado do banco em que eu estava sentado. Logo o banco desocupou e ela se sentou.

Naquela época, meu irmão costumava dizer que eu era ímã de maluco. Hoje, melhor nem perguntar a ele o que pensa de mim.

— Pensei que este ônibus era o 2010B — explicou ela, tentando justificar o constrangimento. — Estou no ponto há mais de quarenta minutos.

Ficou me olhando como quem espera uma resposta do universo.

— O B não passa nesta avenida. Toda vez que a senhora vir o 2010 aqui, pode pegar que é o C — expliquei.

Não sei se minha explicação ajudou ou piorou as coisas. O fato é que ela começou a falar. E não parou mais.

Eu estava num dia de pouca conversa, já cansado pela luta do dia na hora em que só ansiamos chegar em casa. Ou seja, um típico fim de tarde pós-expediente.

Ela contou que morava no bairro havia apenas seis meses. Tinha duas filhas pequenas, de dez e doze anos, que já iam sozinhas para a escola. Primeiro porque ela trabalhava o dia inteiro e não tinha como levá-las; depois porque andar de ônibus em Belo Horizonte era muito fácil e tranquilo.

Olhei ao redor e percebi alguns sorrisos discretos nos rostos de passageiros que fingiam não prestar atenção em nada. São os curiosos de que falei no início. No fundo eles tinham razão: se ela achava tudo tão fácil, bem que poderia se confundir um pouco menos com os ônibus.

Ela falava muito, mas aos poucos o tom de voz foi diminuindo. Parecia se acalmar.

Depois das filhas, contou que era manicure e que havia sido contratada para arrumar uma família inteira para um casamento no fim de semana anterior. Disse que a vida estava difícil, mas que tinha uma clientela fiel, o que garantia um dinheiro certo no fim do mês. Afinal, ela tinha duas filhas e estava separada.

Era tanta informação entrando pelos meus ouvidos que, mesmo calado, eu já estava de cabeça quente.

Então ela perguntou:

— Você é solteiro?

Foi a segunda vez que lhe dirigi a palavra.

— Sou.

Ela suspirou, pensou um pouco e disse:

— Então vou lhe contar uma coisa: casamento é muito complicado, viu? Manter um relacionamento a dois é muito difícil.

Pela terceira vez respondi. Talvez um pouco seco, pelo cansaço, mas tentando ser educado:

— Deve ser difícil mesmo. Mas tem de ser. O relacionamento entre uma só pessoa já é muito complicado.

Respondi assim meio sem pensar. Eu estava cansado de tantas palavras, lutando para não ser grosseiro.

O ônibus passava em frente ao Hospital Belo Horizonte, na Avenida Antônio Carlos.

Ela se calou completamente.

Percebi que talvez tivesse sido indelicado. Pensei em pedir desculpas. Mas um pedido de desculpas poderia reacender aquela conversa inteira e, como já disse, aquele era um momento em que eu já estava mais cansado. Algumas vezes, naquele horário eu tirava um cochilo no ônibus.

A viagem seguiu tranquila. Aceitei em silêncio minha falta de educação e desfrutei da paz que ela trouxe.

Por alguns minutos até me esqueci de que a conversa tinha me agitado.

Quando o ônibus se aproximava da barragem da Pampulha, ela de repente exclamou:

— É!

Fez-se um pequeno silêncio.

— Relacionamento entre uma só pessoa é realmente muito complicado — disse ela.

Até ali eu estava apenas calado. A partir dali fiquei mudo.

Percebi que ela não tinha se ofendido. Estava, na verdade, pensando sobre o que eu havia dito.

E naquele instante eu me senti irresponsável por sair por aí dizendo coisas nas quais nunca tinha parado para pensar de verdade.

Ao invés de confessar e me desculpar, eu me acovardei. Puxei a campainha, desejei boa noite e desci no primeiro ponto. Ali eu esperei o próximo 2010C para chegar em casa.

Precisava entender por que eu tinha dito aquilo.

Ela já tinha pensado. Já tinha uma conclusão.

Eu não.

E por mais que eu tentasse encontrar outra resposta, só uma frase me voltava à cabeça:

“Relacionamento entre uma só pessoa é realmente muito complicado.”

Assim começaram minhas suspeitas sobre uma coisa curiosa:

Talvez o maior problema dos relacionamentos seja que quase ninguém aprende primeiro a conviver consigo mesmo. E depois tenta conviver com o resto do mundo..

(Belo Horizonte, 4 de fevereiro de 2026.)


PS: Agora que já leu a crônica, leia também o poema “No ônibus“, citado no texto!

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