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Primeiros contatos
Publicação em 20/02/2026.
Valença é uma pequena e doce cidade do interior do Rio de Janeiro, onde nasci e cresci.
Fiz meu primário em uma escola que ficava no pátio de uma fazenda: Fazenda Santo Antônio do Paiol. No período do ciclo do café, aquele prédio fora senzala. Na minha infância, um terço já tinha caído; outro terço era curral de vacas; e o último terço era a nossa escola. Aquela escola tinha história, caberia um texto só para ela.
Era pequena. Três salas de aula e, no máximo, quinze alunos por turma.
As coisas mudam, o tempo passa, e chegou o dia em que completei a quarta série e precisei trocar de escola para continuar os estudos. Na Marcos Esteves havia apenas até a quarta série.
Acostumado à escola pequena, ao bairro pequeno, aos colegas que eram também vizinhos (e já faziam parte da vida independentemente da sala de aula) eu sentia que seria difícil me adaptar a outro colégio, cheio de gente diferente e ainda por cima longe de casa.
Algo, porém, jogava a meu favor: o novo colégio só tinha da quinta série em diante. Ou seja, todos seriam novatos, salvo algum repetente. A mudança seria marcante, eu sabia.
Ensinaram-me uma coisa que eu tentava aceitar, embora parecesse estranha: não poderia mais chamar a professora de “tia”. Deveria tratá-la por “Dona” e o nome. De saída, antipatizei com todas as professoras que não gostavam de ser chamadas de tias, mesmo sem conhecê-las.
No centro da cidade havia um jardim. E, no jardim, um colégio. Era para lá que eu iria: o Colégio Estadual Theodorico Fonseca.
O colégio era enorme. Corredores enormes. Gente demais. Só de quinta série, quatro turmas. Fiquei até um pouco tonto. O sinal bateu, e lá fui eu procurar a bendita sala 511, minha turma. Por sorte, havia um menino perguntando, no meio do tumulto, onde ficava a sala. Era o Marcelo. Segui-o no tumulto, aliviado. Grande bobagem. No intervalo, descobri que bastava ter lido os cartazes nos corredores e os números sobre cada porta.
Logo tivemos contato com a primeira professora: D. Leila. Entrou com a expressão mais severa que eu já tinha visto. Jovem, mas dura. E, naquele instante, definitivamente não me deu vontade de chamá-la de tia.
Mal entrou, já foi dizendo:
— Eu nunca vi uma turma tão mal-educada em toda a minha vida. Vocês não sabem que, por educação, a professora deve ser recebida de pé? Vou sair e entrar novamente. Façam certo agora.
E saiu.
Ficamos paralisados. Silêncio absoluto.
Levantamo-nos todos, imaginando até se não seria para rezar. Ela voltou, parou à frente da turma e disse:
— Bom dia. Podem se sentar.
E assim começou nossa primeira aula de História. Duas aulas de cinquenta minutos em que tínhamos até receio de virar o rosto. Não me lembro de mais nada daquela aula. Ainda bem que o tempo passa, até quando custa, e o sinal tocou. Já tínhamos aprendido: éramos novos, mas atentos.
Na aula seguinte entrou uma senhora mais velha: D. Marília, professora de Geografia. Assim que atravessou a porta, levantamo-nos em uníssono, prontos para agradar.
Ela se assustou.
— Que é isso, meus filhinhos? O que vocês estão fazendo? Sei que é o primeiro dia, que todos estão agitados, em um colégio novo… mas não há motivo para tanta baderna. Assim vou começar a aula já chateada com vocês. Sentem-se, por favor. Ai, que saudade do tempo em que me chamavam de tia e ficavam sentadinhos…
Demoramos a sentar, não por rebeldia, mas por pura confusão. Uma coisa já sabíamos: não éramos tão espertos quanto imaginávamos. A vida adulta começava ali, naquele impasse entre ficar de pé ou permanecer sentado.
Também não me recordo do restante da aula. Voltei para casa meio triste naquele dia. Levei alguns dias para me acostumar.
Com o tempo, D. Marília se revelou um doce. Falava baixinho e gostava da sala tranquila. Em casa, contei tudo aos meus pais. Meu pai comentou que ela era conhecida antiga da família. Seu filho, Camilo, se não me engano, estudara com ele no seminário.
Anos depois, já no primeiro ano do ensino médio, vimos no horário que teríamos novamente aula de História com D. Leila. Alertamos os novatos: ela gostava de ser recebida de pé. A fama permanecia.
Quando ela entrou na sala, todos nos levantamos.
Ela parou, olhou, riu:
— Que bonitinhos! Parecem alunos comportados de quinta série. Não precisa mais ninguém se levantar.
D. Leila tornou-se uma das professoras de quem mais gostamos.
No fundo, quando entendemos as pessoas, passamos a gostar delas como são. Com D. Leila estudei até o fim do terceiro ano do segundo grau. Ao nos despedirmos do colégio, convidamo-la para ser nossa paraninfa.
Mas nunca esqueci o choque daquele primeiro dia.
Até hoje, diante de uma situação nova e difícil, penso, rindo sozinho:
— Em pé ou sentado?
Por que é tão difícil estabelecer os primeiros contatos? Por outro lado, imagino que D. Leila e D. Marília combinavam essas broncas antes.
(Valença, 24 de junho de 2000.)

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