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Crônica, Degustação, Memória

Caneca de Açúcar

Publicação em 06 de fevereiro de 2026 (Degustação livro Presença).

Antes de eu entrar para a escola, era comum eu ficar na casa da vó enquanto a mãe dava aulas ou ia a Valença. Era minha segunda casa. Brincava no quintal, pegava laranjas, goiabas ou jabuticabas e quando cansava, ficava por ali rodeando a vó. Pedia doce, pedia biscoito, pedia açúcar…

E ensinava a pedir. Em uma das férias que o tio Osvaldo estava em Valença, não sei em que ano, mas antes dos meus 6, ficamos eu e minha prima Juliana brincando na casa da vó. Quando cansamos do quintal, fomos para a cozinha rodear a vó.

— Vó, me dá açúcar? — pedi e ensinei à Juliana.

A vó pegou uma colher e pôs um pouco de açúcar na nossa mão:

— Toma, mas é só essa vez.

E saímos para o quintal.

Achei que Juliana gostou da novidade. Achei-me importante ensinando o caminho para conseguir o açúcar.

Daqui a pouco voltamos:

— Vó, me dá açúcar? — Os dois quase em coro.

— Toma, mas é só esse pouquinho e chega! — Já em um tom mais sério, minha vó disse.

Estava atarefada no fogão, preparando o almoço, meio na correria.

E saímos para o quintal bem alegres. Nem demos atenção ao tom que ela usou.

Poucos minutos depois, em coro novamente:

— Vó, me dá açúcar?

Minha avó nem respondeu. Pegou duas canecas esmaltadas, tamanho médio, encheu-as de açúcar e colocou uma colher em cada. Pôs-nos sentados à mesa menor e sentenciou:

— É para comer tudo!

Começamos já meio sérios. Era só um pouquinho na mão que queríamos. Comemos um pouco:

— Vó, não quero mais não.

— É para comer tudo, só saem dessa mesa com a caneca vazia — e ficou em pé nos olhando.

O clima ficou tenso. Ali tentamos comer todo o açúcar, mas não descia. Vó Tiana usava açúcar cristal que possui grãos maiores e mais difíceis de serem diluídos. Logo, começamos a sentir a garganta arranhando e os grãos se acumulando na boca. As lágrimas começaram a descer e choramos. Comemos menos que a metade. E a vó ali, brava, dizendo que desde o início disse que era para ser só um pouquinho, mas se pedimos mais, tínhamos que comer.

Naquele momento, percebi que Juliana não gostou tanto assim da novidade, como havia pensado antes. Não tivemos um final feliz. Por fim choramos tanto que a vó nos tirou a caneca de açúcar, mas com tantas broncas que até dava dúvida se não teria sido melhor comer todo o açúcar para a vó se acalmar.

Desde então, a Juliana sempre desconfiava se eu propusesse alguma coisa: as consequências eram meio imprevisíveis.

Tirando essa e alguma outra bronca que possa ter levado, minha vó sempre foi um doce comigo, sem trocadilho.

Nos almoços de domingo, quando todos já estavam à mesa a vó chegava com uma grande panela quente de galinha frita. Mal colocava na mesa, já levantava a tampa e tirava o pedaço que ela havia separado e colocava no meu prato: o jogo, que era o que eu mais gostava. (Na verdade, depois descobri que essa parte da galinha chama-se fúrcula, e não jogo).

Na hora de passear, seja nas visitas que ela fazia às antigas amigas, seja nas romarias para Aparecida do Norte, a vó me arrastava. Dependendo de onde fosse, eu já me oferecia antes ao saber que ela ia.

Eu sempre a seguia quando estava plantando, olhando as plantas ou cuidando do quintal. Principalmente quando estava fazendo doces, e não adiantava ela dizer que tinha que esperar esfriar, eu sempre comia doces quentes: de leite, cidra, mamão, figo, laranja, limão, rapaduras puras ou com misturas. Sobravam também os trabalhos de moer cana, moer café, lixar cascas de laranjas e limão ou raspar figos. Cansativo, mas era uma festa.

(…)

Depois de mais velho, mesmo quando já morava em BH, se eu fosse a Valença e a vó Tiana ficasse um pouco nervosa com alguma coisa, eu dizia: — Não pega a caneca de açúcar não, que já estou saindo. – E a vó se desmontava rindo da história.


Trecho degustação extraído do livro Presença (2022), capítulo 8, entre as páginas 108 e 113.


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