Crônica,  Memória

Depois é que a gente vê

Com carinho e respeito,
à Dona Rogéria!

Publicação em 01/05/2026.

Nunca assisti a uma peça de teatro quando criança. Valença tinha poucas opções na época, mas, como eu não conhecia, também não sentia falta. Oportunidades até surgiram: viajava, vinha a Belo Horizonte ou ao Rio nas férias. Meu irmão, inclusive, ia a peças infantis. Eu preferia os filmes na TV ou a magia do cinema.

Vibrava com os golpes do Lobo Solitário, decorei cada letra de Os Saltimbancos, sofri quando Herbie foi jogado ao mar e acreditei que o tempo poderia voltar atrás quando aquele kriptoniano, mesmo carregando uma pesada capa vermelha, conseguiu voar e girar a Terra ao contrário. Dentro das minhas limitações, não me faltava nada.

Acabei me descuidando e a primeira vez que ouvi as três pancadas de Molière eu já estava na fase adulta, trabalhando fora, e reconheci, ali, o tempo perdido. Se em tudo a primeira vez marca mais, pelo menos a minha ficou registrada no Teatro Rosinha de Valença.

Mas isso não significa que o teatro fosse um território desconhecido para mim.

Na oitava série, era 1987, um dos livros que lemos nas aulas de literatura foi Capitães da Areia. Leituras, resumos, provas… tudo dentro do roteiro automatizado que já conhecíamos bem.

Até que a professora sugeriu algo diferente: criar, em sala, um roteiro teatral baseado no livro. Mas não qualquer adaptação: uma continuação. Um exercício de imaginação sobre o destino e o julgamento dos personagens.

Fugia do script habitual, mas, à primeira vista, parecia apenas mais um trabalho. Encenar na sala, como qualquer atividade em grupo, com a diferença de que, desta vez, a turma inteira era um grupo só.

Só que Dona Rogéria resolveu dar um passo à frente e propôs que apresentássemos a peça no auditório que, na prática, funcionava no mesmo espaço do refeitório do Colégio Theodorico Fonseca. Uma apresentação no intervalo das aulas, para alunos de outras turmas e séries.

Então, alguns problemas começaram a surgir, para mim.

Por causa da minha já conhecida timidez, eu não fazia ideia de qual papel poderia assumir. Na verdade, tinha certeza de que não conseguiria fazer nada.

Foi quando aquela voz calma e tranquila das aulas de literatura veio conversar comigo. Quis entender o problema e sugeriu uma solução: eu poderia ser o narrador. Faria a introdução da peça, a transição entre o primeiro e o segundo ato e apresentaria o elenco. E o melhor, poderia ler o texto.

Ela me convenceu.

Papéis distribuídos. Ensaios em sala. Frio na barriga.

Chegou o dia da apresentação. E, felizmente, tudo correu bem. Não houve críticas das outras turmas e encerramos aquela batalha com a sensação de vitória e eu com o alívio de quem havia sobrevivido ao temido medo de passar vergonha.

Mas Dona Rogéria ainda não tinha terminado.

Ela resolveu avançar mais uns bons dez passos e propôs uma nova apresentação. Desta vez, à noite. Para os pais.

Voltaram o frio na barriga, os ensaios, os preparativos. E eu só pensava: “Agora é com os pais… mas como será isso?”

Quem já vive a rotina de pai ou mãe pode até achar tudo muito comum. “Claro, eu vou a todas as apresentações dos meus filhos.” Que bom! Vá mesmo. Eu também vou. Dou um jeito e vou. E nem são à noite.

Mas, na minha época, isso não era comum. Não havia esse tipo de apresentação nas escolas que frequentei. Aquilo parecia quase uma revolução silenciosa.

A importância que demos àquele evento foi enorme. Mesmo sendo apenas o narrador e ainda podendo ler eu reli o livro. Sentia que algo diferente estava acontecendo. Aquela peça nos dava um senso de valor, de participação, de pertencimento. Era como se, pela primeira vez, a escola estivesse fazendo sentido para além da prova.

A apresentação coroava um ano difícil, cheio de tropeços, em que até uma suspensão coletiva entrou para o currículo da turma.

Aquela peça de teatro me tirou da ideia de que ler livros na escola servia apenas para responder perguntas depois.

Saí de lá com a sensação de que nós, alunos, tínhamos pensado, planejado e executado tudo com sucesso.

Mas, depois é que a gente vai vendo que não foi bem assim.

Dona Rogéria, claro, já enxergava bem mais longe que nós. Foi ela quem pensou, planejou, escreveu, organizou e, certamente, teve um trabalho enorme para nos ensaiar porque, embora unida, a turma era bagunceira. Acho até provável que ela tenha se irritado em alguns momentos. Mas, curiosamente, só me lembro da calma dela.

Nós achávamos que estávamos apenas fazendo uma peça.

Ela sabia que estava nos ensinando a viver. Talvez, a amadurecer sem perceber.

E talvez seja esse o ponto que só a vida adulta revela: muitas das experiências que nos moldam passam despercebidas enquanto acontecem. A gente só entende depois quando percebe que aquele frio na barriga virou coragem, que aquela leitura virou voz e que aquela pequena participação virou presença.

No fim das contas, não era sobre teatro.

Era sobre aprender, aos poucos, a entrar em cena na própria vida e descobrir, no caminho, que o papel a gente não recebe pronto. A gente constrói.

(Belo Horizonte, 15 de abril de 2026)

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