Crônica,  Memória

A biblioteca da minha mãe

Publicação em 17/04/2026.

Quando conheci Laura Ingalls, cheguei a acreditar que a vida podia caber inteira dentro de uma casa de madeira, no meio do nada. Bastava um campo aberto, um céu largo e um pai que, ao cair da noite, tocasse violino e divertisse a todos cantando e dançando.

Não foi na escola que aprendi isso. Foi na biblioteca da minha mãe.

Havia um encanto naquele lugar improvisado dentro de casa: um móvel de madeira, que era do meu pai, com portas largas e prateleiras de livros que funcionavam como portais.

Minha mãe não dizia “leia”. Ela deixava os livros ao alcance. Ou perguntava: “Conhece esse?”. Bastava.

Entre tantos títulos, encontrei certa vez o primeiro volume de Laura Ingalls. Veio parar na minha mão quase por acaso. Quando terminei e devolvi, ela perguntou: “Gostou?”. Ao confirmar, me mostrou outro: “A história continua nesse aqui”.

Achei bom. E, ao devolver novamente, o ciclo se renovou com um terceiro livro.

Eu não sabia que estava prestes a ler uma coleção de nove volumes. Ainda bem. Naquela idade, talvez desanimasse. Não tinham capas chamativas, nem promessas grandiosas. Mas tinham vida.

Dona Ângela sempre amou e incentivou a leitura. Quando minha mãe era adolescente, dizem que não perdia uma sessão de cinema aos sábados, na Pompéia, mesmo se o filme fosse repetido. O objetivo era trocar livros e revistas na porta do cinema. O filme era só um bônus.

O ritmo simples e divertido da vida de Laura foi me encantando ao apresentar um outro estilo de existência: passos na terra, vento entrando pelas frestas, dias que começavam com trabalho e terminavam com histórias.

Havia dificuldades, mas vinham envoltas em uma dignidade tranquila, quase silenciosa, como se tudo fizesse parte de uma ordem maior.

E, sobretudo, havia o violino.

Aquele som atravessava as páginas e chegava inteiro até mim. Não era apenas música, era descanso. Era a promessa de que, apesar de tudo, havia beleza suficiente para sustentar o dia seguinte.

Eu esperava ansiosamente cada nova cena em que o violino aparecia, só para imaginar a pequena Laura dançando.

Durante muito tempo, acreditei que crescer seria continuar ouvindo aquele violino.

Mas o tempo não mantém promessas. Ele apenas segue.

Laura cresceu. De repente, os capítulos já não eram sobre correr pelos campos ou observar o céu. Eram sobre contas, perdas, escolhas difíceis.

O amor continuava ali, mas já não vinha sozinho. Vinha acompanhado de cansaço, de incerteza, de dias em que era preciso insistir mesmo sem garantia de que daria certo.

O campo ainda existia. A casa continuava de pé. O vento ainda soprava.

Mas havia menos poesia no ar.

O casamento de Laura não veio como nos contos de fada infantis. Laura e Almanzo enfrentaram pobreza, colheitas fracassadas e dívidas. Havia amor, claro, mas o “felizes para sempre” parecia sempre… adiado.

Ali, por volta dos dez anos, percebi que um dia cresceria também.

Foi um choque e também um novo olhar para a história. Em vez de abandonar os livros, fiquei ainda mais curioso: queria saber como tudo aquilo iria se resolver, como ela atravessaria os problemas.

Ainda mais porque minha mãe já tinha me avisado: tratava-se de uma história real.

É curioso o tipo de emoção que a literatura pode nos provocar. Finalizar aquela saga foi um prazer difícil de traduzir. Não é que me faltem palavras, mas talvez explicá-las exigisse um texto muito maior do que este.

E olha que eu nem sou de economizar palavras.

Críticas? Apenas uma: a nova geração talvez não encontre essas mesmas emoções rolando telas e assistindo a vídeos infinitos.

Mas tudo bem. A leitura ainda resiste, teimosa, para quem resolve ficar.

Foi também uma experiência entender que a vida adulta chega de mansinho. Ela não bate à porta, não faz anúncio. Vai apenas ocupando espaço. Quando percebemos, já estamos escolhendo entre descansar… ou sonhar um pouco mais alto.

E, ainda assim, algo permanece.

Às vezes, muito de vez em quando, em um fim de tarde qualquer, quando o dia desacelera sem pedir licença, eu lembro da biblioteca da minha mãe. De mim mesmo, menor, sentado no chão, abrindo um livro sem saber que, na verdade, estava abrindo um jeito de ver o mundo.

E talvez eu nunca tenha agradecido o suficiente à minha mãe por isso. Por não precisar insistir, por não transformar a leitura em obrigação, mas em convite. Pela biblioteca dentro de casa, construída com cuidado e intenção, como quem planta algo sem pressa de colher. Foi ali, entre prateleiras simples e histórias silenciosas, que ela me ensinou, sem dizer, que os livros não são apenas páginas, são caminhos. E que, em muitos momentos da vida, são eles que nos encontram quando mais precisamos. Agradeço agora.

E então penso que talvez o pai de Laura nunca tenha parado de tocar seu violino.

Talvez a música nunca tenha deixado de existir. Talvez o que tenha mudado tenha sido apenas a pressa. Essa urgência adulta que nos ensurdece devagar, que nos convence de que não há tempo para pausas, nem espaço para delicadezas… e que, confesso, também me pegou naquela leitura.

Crescer não é abandonar a poesia.

É esquecer de escutá-la.

Mas, volta e meia, quando o mundo dá uma trégua, ou quando a gente decide dar, ainda é possível ouvir, ao fundo, quase imperceptível, uma melodia antiga insistindo em ficar.

Um livro. Uma foto. Um vídeo.

Ela sempre esteve lá.

(Belo Horizonte, 14 de abril de 2026.)

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