Crônica,  Memória

É conversando que a gente não se entende

Publicação em 08/05/2026.

Penso que não vou conseguir conversar com meus netos. Mesmo que eu queira, até lá a barreira entre a linguagem dos jovens e dos adultos talvez já esteja grande demais.

Há algum tempo, algumas coisas me incomodam no uso incorreto da linguagem. Não o erro humano ou a falta de conhecimento. Erramos todos nós e, por quantas vezes, nem percebemos o erro?

Mas o que pensar quando esse erro é proposital? Quando o pronome da segunda pessoa é usado com a conjugação da terceira para parecer diferente. Ou pior: quando o pronome é a primeira pessoa do plural e a conjugação, da primeira do singular. “Nóis (sic) não engole, né?”

Já ouvi gente dizendo que eu não deveria implicar com isso porque seria apenas um jeito popular de falar, linguagem da quebrada. Esse argumento sempre me soa estranho. No fundo, essa nova moda da linguagem bagunçada não escolhe classe social. Está em todo canto. Rico, pobre, influencer, estudante, empresário. Virou quase um dialeto nacional da internet.

E convenhamos, a literatura brasileira nunca precisou de riqueza para produzir grandes mestres da palavra. Machado de Assis, Lima Barreto e Carolina Maria de Jesus saíram de origens humildes e trataram a língua portuguesa com uma intimidade invejável, assim como tantos outros nomes. Gente que fazia a palavra parecer conversa de cozinha, sem precisar brigar com gramática

O problema não para no erro proposital. Tem uma nova linguagem surgindo também. E, dessa vez, parece que o objetivo é justamente não ser entendido. Se nós, um pouco mais velhos, repetirmos, eles se estressam. Mas é tão difícil acompanhá-los que eles pouco se preocupam.

Afinal, quem pode definir o que realmente significa um “six-seven”? Esse meme viral que, por definição, não é explicado pelos praticantes nem pelas buscas na internet. É uma brincadeira aleatória, considerada sem sentido, mas repetida aos gritos, com gestos feitos com as mãos e muitos risos. Experimente entrar no Google, digitar 67 e clicar em pesquisar para ver o que acontece.

Farmar aura” é um termo que quase transforma o momento em um ganho de pontos de um jogo. Você pode farmar ou perder a tal aura. Se a pessoa farmar facilmente, é um Sigma; se falhar, é um Beta; e se ficar muito focado nesses termos, é um Algoritmado. Nem tentei entender direito o que é NPC, Alpha, Beta ou Bruh. Ou melhor: tentei começar a entender o contexto e desisti.

Descobri que irritamos os adolescentes se usarmos esses termos. Acho que, para eles, isso estraga a brincadeira, já que estão criando uma linguagem que deveria ser entendida apenas por eles.

Onde fica aquela crença que trouxemos da escola de que a linguagem foi criada para suprir a necessidade de comunicação, cooperação e sobrevivência dos antepassados humanos?

Podíamos tentar confundi-los também. Temos muito mais termos da nossa época: “nem tchum”, “dar um pinote”, “é o escambau”, “uma ova”, “cacildis” e tantos outros. “Nem que a vaca tossisse” ou “chovessem canivetes”, explicaríamos. Até que “seria o ó do borogodó”, mas isso fugiria muito à nossa natureza.

Não era propósito da época que ninguém entendesse. Era o contrário. Queríamos que todos usassem e popularizassem esses termos.

Eu achava interessante quando os rebeldes de minha adolescência exclamavam “garotos inventam um novo inglês”, simbolizando criatividade e adaptação cultural da influência estrangeira. Não me parece tão bom no contexto excludente de hoje em dia.

Ficamos velhos? Podemos testar: “o tempo passa, o tempo voa…” Se você souber completar a frase, a resposta é afirmativa.

E acho que o futuro já começou.

Daqui a alguns anos, meus netos vão entrar na sala dizendo meia dúzia de palavras que soarão como senha de Wi-Fi, vão rir uns para os outros e sair. E eu ficarei no sofá tentando descobrir se fui cumprimentado, ignorado ou convidado para um aniversário.

Talvez envelhecer seja exatamente isso: precisar de legenda para conversar com a nova geração.

Se eu fosse mais novo, provavelmente esperaria o próximo seis de julho para datar este texto. Mas já foi.

(Belo Horizonte, 05 de maio de 2026)

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