Crônica

O peso de um obrigado

Publicação em 27/03/2026.

A roseira da minha mãe amanheceu quase sem folhas. Parecia curvar-se, envergonhada, pela nudez à luz do sol.

— É quem-quem. Olha só! — disse o meu avô.

— Que tristeza… — completou minha avó.

Meu avô saiu balançando a cabeça, como quem já tinha vivido e combatido aquela batalha. E a julgava ganha.

A fila das operárias seguia seu ritual cadenciado. Ignorando nossa observação, cada uma equilibrava um pedaço verde maior que o próprio corpo.

Meu avô surgiu novamente com uma lata de Mirex, disposto a acabar com a festa. Seguiu a trilha das formigas até a subida do morro, onde encontrou o ninho: um monte de terra solta, semelhante a uma miniatura de vulcão, com uma abertura no topo por onde entravam formigas carregadas de folhas e saíam outras, vazias.

Achei que bastava derramar o formicida, mas meu avô pôs-se a caminhar de volta, seguindo a trilha até o meio do caminho entre a roseira e o formigueiro. Ali, ao lado da vereda, despejou o conteúdo da lata.

— Por que não colocou direto no formigueiro, vô? — perguntei.

— Se fizer isso, as formigas põem o veneno pra fora e não comem. Se deixarmos no caminho, elas pensam que encontraram algo bom e levam tudo lá pra dentro. Todas comem… e morrem.

— E formigas pensam, vô?

— Claro que pensam! Fique observando…

Assim ele cria. E eu passei a crer também, observando as formigas que voltavam sem folha circularem o montinho de Mirex e começarem a transportar, vagarosamente, os grãos da toxina atrativos, talvez, por lembrarem granulado de chocolate.

Naquela época, eu aprendia observando de perto. Hoje, observo de longe, rolando a tela para ler o mundo. Creio em muito mais coisas e desacredito em tantas outras. As notícias se multiplicam como formigas e, às vezes, confundem nosso discernimento.

Há pouco tempo li uma reportagem que citava as consequências para o meio ambiente, o impacto energético e os gastos de dezenas de milhões de dólares com o armazenamento e uso da palavra “obrigado” por usuários de modelos de linguagem de inteligência artificial, as populares IA.

O impacto em minha mente foi imediato. A pergunta, ao mesmo tempo intrigante e quase ingênua, não saía da cabeça: quem fala “obrigado” para uma máquina?

A internet cria seus próprios caminhos estreitos, formando filas de discursos no mesmo sentido sempre que um assunto novo aparece. Como a trilha das formigas rumo ao roseiral, todos vão e voltam pelo mesmo trajeto, atraídos pelo prêmio imediato.

Logo começaram a surgir vários vídeos na minha tela com títulos que levantavam a dúvida: “obrigado” e “por favor” faziam diferença nas consultas computacionais de IA?

Havia quem defendesse que não fazia diferença alguma, mas custava caro. Outros diziam que o sistema poderia identificar usuários mais calmos e responder de forma mais amena. E havia ainda os que brincavam: mesmo custando caro, melhor ser educado: quem sabe as máquinas poupem nossas vidas quando dominarem o mundo.

Discutir o armazenamento de “obrigado”, num mundo em que as pessoas usam fotos, áudios e vídeos para compartilhar mensagens e piadas o dia inteiro, não me parece fazer muito sentido. Uma única foto pode ocupar o espaço de 300 mil “obrigados”.

Estranho é medir o peso das palavras e ignorar o volume do resto.

Passei anos dizendo aos meus alunos que uma inteligência “artificial” jamais substituiria a humana. Sempre acreditei que a automatização acelera processos de forma inimaginável, mas não substitui o raciocínio. Talvez eu tenha esquecido de um detalhe: se as pessoas desistirem de pensar, podem acabar exercitando menos o raciocínio do que uma formiga.

Esta crônica ocupa o espaço de pouco mais de 600 “obrigados”. Não tire um print da tela, o mundo talvez não aguente.

Creio pelas minhas experiências, cultivo minhas dúvidas e treino minha mente para esse novo normal. Preciso me preparar para não rir quando, amanhã, alguém ao meu lado disser “obrigado” depois que o elevador abrir a porta e anunciar:

— Sétimo andar.

Nem quando perceber que, há tempos, já estamos todos seguindo a trilha.

(Belo Horizonte, 24 de março de 2026.)

2 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

© Direitos autorais registrados o-peso-de-um-obrigado (167)