Crônica,  Memória

Passarela da Fé

Publicação em 30/01/2026.

Faltavam duas semanas para o fim de janeiro de 2026 quando levamos as crianças a Aparecida. Para elas, era novidade. Para mim, não. Visitei aquele lugar tantas vezes quando criança, em romarias e excursões, principalmente no mês de outubro, que o lugar acabou se tornando uma lembrança permanente. Muitas dessas viagens eram organizadas pelos padres orionitas da Fazenda Santo Antônio do Paiol. Foram tantas idas, tantas imagens, tantas pequenas cenas felizes, que já passara da hora de as crianças começarem a construir as suas.

Nossa família é católica desde sempre, mas, quando eu era criança, a motivação era menos religiosa e mais festiva. Ia pelo passeio, pela viagem, pela promessa de um dia diferente.

Em geral, saíamos de Valença à meia-noite. O ônibus cortava a estrada no escuro, e chegávamos bem cedo, com o dia nascendo, a tempo de assistir à primeira missa. Depois da missa, o dia se abria inteiro: caminhávamos pela basílica e por seu entorno, sem pressa.

Havia sempre uma visita à Feira de Ambulantes, outra à Basílica Histórica, uma parada na Sala das Velas e na Sala dos Milagres. Tudo fazia parte do roteiro, como se obedecêssemos a um ritual silencioso aprendido com o tempo.

Na hora do almoço, minha avó, Tiana, retirava de dentro das sacolas uma vasilha com molho de frango desfiado e outra com pães. Havia também uma garrafa de café. O lanche era consumido nas próprias poltronas do ônibus da excursão, que permanecia aberto o dia todo. A comida era farta, como tudo que minha avó fazia.

À tarde, meu avô, José, me comprava um picolé de três cores: morango, creme e chocolate. Era comprido, envolto num saco plástico, preso a um palito igualmente longo. Tinha pouco mais de trinta centímetros e era feito artesanalmente, como quase tudo naquele tempo. Tinha gosto de prêmio.

Eu me sentia em casa nessas excursões. Muitas famílias de Esteves estavam ali, representadas nos bancos do ônibus. Dona Nadir, Tereza, Dona Alvina — nomes que me lembro mais vezes e que ainda hoje caminham comigo quando penso naquele tempo.

Foi numa dessas viagens que passamos por um aperto que virou história, repetida por muito tempo. Aconteceu em outubro de 1983, numa romaria organizada pelo padre Valentin e pelo padre João.

Fomos eu, minha avó Tiana, meu avô José e Dona Nadir atravessar a Passarela da Fé para visitar a Basílica Histórica, a antiga. Naquela época, a passarela ainda não tinha divisão clara entre quem ia e quem vinha. Some-se a isso o fato de outubro ser o mês de maior movimento de romeiros em Aparecida. E, naquele ano, parecia haver gente demais.

Quando voltávamos, o excesso de pessoas na passarela provocou um tumulto. Havia gente tentando subir enquanto outros tentavam descer, todos apertados, muitos carregando sacolas. O empurra-empurra foi aumentando até que os pilares da estrutura começaram a balançar.

Cabe uma pausa para esclarecimentos. A Passarela da Fé de Aparecida, um ícone do complexo da Basílica, inaugurada em 1971, sempre foi conhecida por esse movimento. A estrutura metálica, com seus 392 metros de extensão e 35 metros de altura, foi projetada para balançar, absorvendo peso e dilatação. Era um movimento previsto da engenharia. O formato em “S”, homenagem às curvas do Rio Paraíba do Sul, contribuía para o efeito pendular que assustava quem não o conhecia. Mas, naquele momento, ninguém ali sabia disso. Sentimos medo.

Começou uma gritaria. Um desespero que se espalhava rápido. Algumas pessoas diziam que morreríamos todos ali. Minha avó apertou com força um dos meus braços; Dona Nadir segurou o outro. Talvez quisessem me proteger de uma queda. Olhei para baixo e vi os carros estacionados enquanto os postes de iluminação destacavam o movimento das bordas da passarela. A vertigem veio.

Meu avô tomou a frente de nós três. Não rezava, não gritava. Observava. Caminhava atento, olhando para os lados, tentando nos livrar dos empurrões e evitar que caíssemos no chão. No meio do tumulto, ele parecia calcular cada passo.

Eu olhava para minha avó, rezando alto, e pensava, em silêncio:

— Será que vamos morrer?

Depois, olhava para meu avô, sério, concentrado, dominando o próprio medo, e tinha certeza de que sairíamos dali em segurança.

A passarela acabou sendo fechada para a entrada de novos pedestres até que todos conseguissem sair. Na extremidade, funcionários tentavam acalmar as pessoas, pedindo que andássemos com calma. Ao pisar fora da passarela, minha avó terminou a reza e respondeu a um dos funcionários, exaltada:

— Queria ver se você estivesse lá se ia pedir calma!

Depois disso, ela não parava de falar. Estava nervosa demais. Agradecia, reclamava, exagerava:

— Nunca mais passo nessa passarela. Da próxima vez vou por baixo, pela escada. Imagina se acontece alguma coisa com você… sua mãe me mata!

Era esse o misto de excitação e exagero do momento. O nervosismo da minha avó se transformando em palavras. Dona Nadir sentou-se e ficou quietinha, descansando. Eu me sentei ao seu lado. Meu avô permaneceu em pé, observando tudo ao redor. Cada um se acalmava à sua maneira.

Quando minha avó contou o ocorrido ao meu pai, encerrando com a promessa de nunca mais atravessar a passarela, ele riu:

— Se achar que vai cair, melhor não passar. Se passar por baixo, cai tudo na sua cabeça. É pior.

Depois, ao narrar essa história em Belo Horizonte, durante férias, minha tia Cláudia me ouviu com atenção e me submeteu a um verdadeiro interrogatório:

— Ahnnn…?

— Você viu balançar mesmo?

— Tinha quantas pessoas?

— Estavam subindo ou descendo?

— Como conseguiram sair?

— Movimentava quanto? Assim? — e mostrava um certo tamanho com as mãos.

No final, concluiu apenas:

— Nó!

Passei no crivo da dela. Se fosse mentira, não passaria; teria caído em contradição.

Aparecida ainda hoje me devolve meus avós e tantas outras experiências boas. E, como memória puxa memória e história puxa história, meu tio e padrinho, Alberto, me enviou outro caso, três dias antes desta última viagem.

Em 1982, quando a imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida visitou Valença, o cortejo passou por Esteves, bem em frente à nossa casa. Todos foram para a porta acompanhar. Em certo momento, minha mãe quis comentar algo com meu avô, mas percebeu que ele estava concentrado, balançando levemente a cabeça para cima e para baixo, como quem reza. Preferiu não interrompê-lo.

Depois que tudo passou, ela explicou por que não falara antes. Ele respondeu:

— Eu não estava rezando, não. Estava era contando quantos carros tinham. Nunca passou tanto carro aqui assim de uma vez só.

Fico agora com duas dúvidas.

Que lembranças as crianças vão ter de Aparecida? Aperto, não tiveram nenhum.

E o que pensava meu avô durante a travessia da passarela naquele dia? Tentava contar as pessoas, como contava carros? Pensar na queda não parecia ser seu modo de estar no mundo. Talvez fosse só isso: gente demais para observar — e a obrigação silenciosa de cuidar.

(Ubatuba, 25 de janeiro de 2026)

2 Comentários

  • Marina Fontes

    Acabei de ler chorando de ri da cena… imaginando como a tia ficou brava…. e tio Zé enorme…. numa calma de dar inveja…..

  • Juliana

    Que presente para nós, ser parte dessa família e ter a história contada por você . Quantas coisas que não conhecíamos desse lado ❤️

Deixe um comentário para Juliana Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *