Pasta crua
(07 de janeiro de 2026)
Ela misturava umas 107 gramas de farinha de trigo, uma derramada de água e um punhado de sal, medidos entre uns três dedos, em uma tigela de louça. Batia tudo com um garfo enquanto a frigideira esquentava a banha de porco. Como sei as medidas? Calculei de cabeça, como ela calculava no olho as porções que descrevi no início do texto.
Não formava uma massa: era calda grossa, derramada aos poucos para fritar, formando discos finos do tamanho de um prato. Se bem que o tamanho do prato era coincidência. Eram do tamanho do fundo da frigideira.
Era assim que minha avó preparava a saudosa “pasta crua”. Saudosa pra mim hoje, mas já saudosa para ela à época. Quando eu era pequeno, ninguém preparava pasta crua para o lanche da tarde. Mas ela, quando fazia, nos contava: muitas vezes era o que tinham para o lanche entre as refeições quando ela era pequena, lá por volta da década de 1920. Uma opção simples e barata, que atendia as condições mais carentes. A pasta crua que, como visto, não era crua: era frita.
Para mim, é um alimento saudoso do saudosismo dela. Pasta crua com café me traz água nos olhos, antes da água na boca.
Acho que é uma receita que vai ficar comigo a vida toda e se extinguir. Já tentei explicar para outras pessoas, já descrevi, já contei detalhadamente… Em média, não adianta. A maioria se recusa a entender e tenta mudar o foco da conversa.
— É uma panqueca sem ovos e sem leite?
— É um pão sírio sem fermento?
Claro que não. É uma pasta crua. Não falta nada. Ela vem completa. Temperada com saudade, pitadas de lembranças e flashes salpicados, marinados em amor e saudade. Quando vejo uma pasta crua no prato, ao lado de um copo de café (sim, copo de vidro, com café pela metade), fica tão completa que sinto o olhar da minha avó esperando aproveitar aquela delícia.
Imagine se eu entrasse em uma restaurante de massas, escolhesse uma panqueca e pedisse para perguntar ao chef porque ele colocou leite e ovos na pasta crua? Pois é. Cada qual com seu contexto e realidade.
Em uma das últimas tentativas de explicar pasta crua, alguém me disse:
— Acho que sei o que é. No interior de Minas chamam isso de “mentirinha”.
Logo adiantei-me:
— Não, não. Mentirinha é outra coisa. Já experimentei uma vez.
Menti. Mas por um bem maior. Posso não conseguir explicar a pasta crua, mas não vou permitir que a chamem por este nome, nem de “isso”. Então a mentirinha, nesse caso, foi a minha. Nunca comi nada com esse nome, nem havia ouvido falar sobre a nomenclatura antes. Não sei do que se trata.
Esse era o jeito da minha vó compartilhar seu passado, suas histórias e experiências.
Certa vez, ela quis compartilhar como se faziam rapaduras antigamente. Que trabalheira foi!
Primeiro, tivemos que construir um pequeno fogão a lenha no quintal. Até aí, tudo era festa. A família toda participava: minha mãe, meu pai, meu avô, eu e meus irmãos. Depois veio a fase mais pesada: moer as canas para encher um tacho de garapa.
As canas eram cultivadas no próprio quintal. Tínhamos um canavial na subida do morro. No quintal também havia um pequeno engenho — chamávamos de engenhoca — e estávamos acostumados a moer cana em casa. Mas normalmente eram dois ou três litros de garapa, e estava pronto.
O problema foi que minha avó arrumou um tacho emprestado de uns 80 litros. Compareceram à empreitada também o tio Juca (irmão da minha avó), o Duda (nosso primo, filho do tio Juca) e o Quincas (nosso primo, filho do tio Chico, também irmão da minha avó), formando uma equipe de revezamento na engenhoca.
Para quem nunca moeu cana em uma engenhoca manual, vou tentar descrever a experiência. A cana é cortada e lavada. Depois, passa-se um facão por todo o caule para tirar os nós. Isso facilita a moagem e evita que o caldo fique ácido.
A engenhoca era composta de três cilindros de ferro, ou três rolos, dispostos de modo que as engrenagens nos extremos os interligassem. Uma engrenagem maior estava ligada uma manivela, que fazia o rolo superior girar, puxando os outros. Assim, aquele pequeno monstrinho de ferro, de aproximadamente 30 cm largura, 30 de altura e 30 de comprimento, ia mastigando as canas.
A primeira passagem da cana deve ser bem devagar, pois jorra muito caldo, que desce por uma bica central e é aparada por algum vasilhame, tornando o exercício prazeroso.
Em seguida, repete-se a moagem, recolocando o bagaço esmagado, agora dobrado, para extrair o restante do caldo possível. Dessa vez, com muito mais força e muito menos caldo.
Depois de muito esforço, tem-se um litro de garapa. Ficam faltando só mais 59, porque, em um tacho de 80 litros, colocam-se em torno de 60.
O braço dói, as costas doem, mas ninguém quer abandonar a folia do revezamento. Você pode até dizer que nunca mais fará isso de novo, mas eu voltaria àquela folia em família hoje.
Até que tudo culmina na maior decepção do mundo. O tacho fica fervendo quase o dia todo, o caldo vai engrossando. As crianças brincam e se distraem com outras coisas. Fogo, tacho e fogão de lenha são coisas de adultos. Quando os adultos vão retirar o tacho, as crianças se aproximam e os olhos se esbugalham:
— Cadê o caldo de cana que moemos? Só sobrou isso?
No fundo do tacho, o produto reduziu-se a menos de um quarto do volume inicial. Os músculos voltam a doer só de constatar.
Mas nenhuma outra rapadura no mundo terá o gosto daquela. É única.
Como a pasta crua. Se bem que a pasta crua é ainda mais única. Acho que deve ser só minha. Não por mérito. Acho que ninguém mais se interessa.
Por fim, pasta crua combina também com café de garapa: ferve-se a água colocando garapa no lugar do açúcar. Minha avó fazia muito, e eu gostava. Ela se lembrava de tantas vezes, na roça, ela já tinha feito aquele café com garapa e acrescentava a vantagem de não precisar de açúcar.
Ela contava. Meu pai contestava:
— Pode achar bom ou até ótimo, mas não pode dizer que café feito com garapa não possui açúcar.
Se ele estivesse aqui, eu combinaria com ele que essa era a mentirinha da minha avó.
Ela nem ligaria. Continuaria a contar sua história do café sem precisar de açúcar — e serviria com a pasta crua.
Vou agora mesmo medir minhas 107 gramas de farinha.
5 Comentários
Alberto Montes
Que bom reviver memórias e descrevê-las tão bem como você sempre faz. Parabéns! Belo texto.
Cléber Fontes
Obrigado, tio! Escrever é reviver degustando ao compor cenários com as palavras, não é mesmo?
Marina Fontes
Parabéns pelo belo texto! Sem palavras para tanto saudosismo!!! Tbm amo pasta crua… ansiosa pelo próximo!!!
Cléber Fontes
Obrigado, Marina! Se o simples nos deixa felizes, então não é tanto simples assim. Bom que gostou, espero que goste de todos, como da pasta crua!!!
Osvaldo Pereira Fontes
Parabéns, sobrinho muito querido. Fico muito feliz e emocionado.sinto voltar no tempo.
Continue sem trégua. Você está brilhante.
Grande abraço com as bençãos de Deus e nossas.